12/02/2010

A gaja.



A gaja chegava a casa sempre por volta das dezanove horas que é como quem diz à noite no Inverno, à tardinha no Verão. Abria a porta com minúcia, tossia para camuflar o ranger da fechadura. A porta era um grande bloco de madeira negra, um trofeu como ela tanto gostava de afirmar. Fizesse frio ou calor, chuva ou sol, na maior parte dos dias usava vestidos finos de seda a fingir. As cores nada sóbrias, os vermelhos, verdes, azuis berrantes, rosas translúcidos. A gaja tinha um sofá em forma de mão para se sentir aconchegada, sentava-se como se estivesse abraçada, beijava as paredes com os dedos das mãos. Na casa dezenas de personagens e animais de loiça olhavam para ela como se a conhecessem desde sempre; como se a odiassem por essa prisão de estar no mesmo sítio dezenas de anos a observar as maníacas obsessões que a gaja trazia dentro daquele pouco corpo que lhe restava depois de tirada a mágoa. Às segundas e sextas-feiras de todas as semanas era dia da empregada, como dizia a gaja com a mão a puxar o cabelo para trás, ir limpar-lhe o pó à casa, limpava-lhe também o rasto de ódio negrume que a sua senhora ia deixando nas várias paredes. Não recebia mal, o que lhe faltava em dinheiro recebia em gritos e ódios de estar mal feito o que afinal não tinha que se dizer. A gaja sempre fora assim; sempre, ódio por ódio era um passatempo que conhecia como ninguém. Tudo era mau, à excepção dos vestidos de quase seda. Tudo era mau, menos ela. 



Fotografia - Anger por FAHAD MOEEN

2 Comentários:

imagination walks disse...

Olá Edgar!

Olha, desculpa, mas vou começar a enumerar tudo o que adoro do teu post.
É que elogiar sempre foi um dos meus prazeres favoritos...

1) este teu último post reforça a versatilidade não só da tua escrita, mas da tua imaginação.

2) o contraste entre a cor amorosa das letras enfatizadas e a ferocidade das palavras que tu escolheste tão bem é... exímio.

3)"Não recebia mal, o que lhe faltava em dinheiro recebia em gritos e ódios de estar mal feito o que afinal não tinha que se dizer." - golpe de mestre, ninguém te apanha.

4) a imagem que tão bem acompanha a tua obra.

5) e o título, claro!

Abraço, bom fim-de-semana.

Continua, continua, mas continua... :O Uau.

Edgar Semedo disse...

Olá Pedro,

1) Obrigado pela visita;

2) Obrigado pelos elogios, não sei se os mereço mas agradeço na mesma. Receber elogios nunca foi algo a que me habituasse ao longo da vida. Agradecer já faz bem parte de quem eu sou.

3)Captas-te a frase principal de todo este texto, aliás esse text5o podia existir apenas nessa e noutra frase.

4) Irei continuar

5) espero que estejas a ter um bom fim-de-semana

Abraço,

Edgar Semedo

 
 
Copyright © Palavras minhas.
Blogger Theme by BloggerThemes Design by Diovo.com