5/17/2011

A montra



Havia uma certa agitação dentro da loja. Eu via apenas a montra que saía para a rua oferecendo imagens de brilhos e cores que eram o contraste com a rua cinzenta. Ao balcão estava um homem e uma mulher atendidos por um pequeno franzino que em bicos de pés tentava elevar a sua altura, ou o seu posto, o que é dizer o mesmo. Os brilhos faziam-me lembrar a luz entrecortada do abajur lilás que tinhas em tua casa. A saia da mulher a saia da tua mesa de estar. O homem esbracejava e ecoavam no beco da rua as palavras roubo, e o verbo ser conjugado no pretérito perfeito dando a acção como acabada. No meu coração e na minha boca e no meu olhar só o pretérito imperfeito. É isso que nós somos; um passado imperfeito que se prolonga neste presente de vislumbrar as montras e encontrar bocados de nós expostos em panos e brilhos. Dentro da loja a mulher parecia não existir, sorria timidamente como quem sustém o choro; olhava o marido, olhava o rapaz amedrontado e por isso com feições de coragem. O homem gritava cada vez mais alto e os seus braços parece que se prolongavam. Apostei se conseguiria tocar o tecto onde um candeeiro cheio de lágrimas de cristal me recordou o cheiro do mar que se sentia do alto da tua janela. Cheio de brilhos o candeeiro parecia uma bola de fogo; justamente o que o teu coração é. Farto dos gritos do homem o pequeno rapaz apontou-lhe para a porta. O homem subiu o tom da sua voz quando eu imaginei que tal não fosse possível. A montra ficou cada vez maior como se me engolisse; a saia da mulher estupidamente mais pequena como se todo o corpo desaparecesse naqueles quilómetros de pano xadrez a branco e pérola. Saíram para a rua, o corpo dos dois bem junto quase me toca. Vi-me obrigado a dar um par de passos em frente. Toquei a montra e foi como se te beijasse e os teus lábios estivessem frios. Tornámo-nos então presente e com isso futuro. O homem gritou maricas de merda. A mulher olhou o rapaz e foi como se lhe pedisse desculpa. O rapaz olhou-me. Da minha boca só consegui dizer essa montra é como a minha vida. Ele mandou-me à merda. O homem mandou-me à merda. Todos saíram. Eu fiquei ainda uns largos minutos, depois fui e desci a rua.

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